Nos dias de chuva o centro de Bauru parece se desfazer. Enquanto as calçadas enchem com a água das enxurradas, as ruas e praças ficam vazias, com poucas possibilidades de abrigo para quem quer passar. O único coreto da praça Rui Barbosa é uma delas, junto com as marquises do Calçadão da Batista, lugar reservado para lojas grandes ou pequenas, onde os carros não entram.

    Ao contrário de dias como esses, o constante movimento nas quatro ruas que marcam o contorno da praça central da cidade é uma amostra da funcionalidade do espaço. Raras árvores, bancos expostos ao sol e chuva e a falta de chamadores culturais reduziram a vastidão do lugar à uma passagem.

    Os pedestres tiram pouco ou nenhum tempo para aproveitar o lugar; a maioria apenas cruza o pavimento para chegar às lojas, ao banco, aos estacionamentos. Quem utiliza mesmoo espaço são os moradores e moradoras em situação de rua que vão até o centro da cidade para trabalhar cuidando de carros, embaixo do sol escaldante, ou para encontrar seus conhecidos, espalhados por alguns bancos nos cantos. Grupos de idosos aposentados - já conhecidos por morarem na região - se sentam sob as poucas sombras para jogar baralho ou dominó. Alguém às vezes recita a bíblia. 

    Essa disposição vem de pouco tempo. A Rui Barbosa e o centro da cidade mudaram de forma constante desde sua criação e ao longo do desenvolvimento. Estritamente ligado à chegada e desenvolvimento da ferrovia, esse espaço recebeu grande variedade de experiências daqueles que passavam ou se instalavam pela cidade. Alí cresceram as trocas comerciais e sociais, que concentram o centro da população em torno da economia local. Não por acaso, a partir desse ponto, se iniciaram os projetos de revitalização da praça e construção do Calçadão da Batista.

    A região, conhecida como Saara por conta do clima quente e seco da cidade, deu possibilidade para a criação da Rui Barbosa, chamada inicialmente de Praça Municipal. Ligada à Catedral do Espírito Santo, igreja matriz, a praça teve seu caráter religioso modificado com início no primeiro projeto, de 1914, inspirado na Praça da República de São Paulo, que dava ao lugar um caráter de contemplação e integração. Cheia de arbustos e árvores, com um vasto lago e caminhos sinuosos, buscava aspectos contemporâneos da capital para implementar no interior em desenvolvimento a modernidade, muito comumente almejada pela elite que detinha o comércio do café, que entraria em crise no fim da década dando lugar à expansão da ferrovia pelo noroeste paulista.

    Os interesses da elite cafeeira são marcadores importantes das apropriações do espaço na conjuntura da época. O artigo “Perda de patrimônio paisagístico: praça Rui Barbosa, Bauru - SP” publicado pela arquiteta, paisagista, professora e doutora do Departamento de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Emília Falcão, mostra que nos anos de 1930 a presença de pessoas negras não era permitida na praça, e era fora de seus limites que circulava essa população. Enquanto isso, era ali que famílias brancas passavam o tempo. 

    A primeira reforma aconteceu nos anos 1950, quando a comunicação e a cultura efervesciam. A grande movimentação, especialmente da população trabalhadora, pobre, negra, leva à transição de um lugar de interações para um lugar de passagem, numa tentativa de dispersar essas presenças. A revitalização de 1991 evidencia essa mudança de forma drástica: a maior parte das árvores é cortada, o lago dá lugar a uma fonte muito menor, os caminhos viram um pavilhão de concreto, quente demais ao sol, molhado demais na chuva. Adilson Santos, 45, cuidador de carros na região da Rui Barbosa, pedreiro e repórter do jornal independente Fatos da Rua, feito por pessoas em situação de rua, conta que sua relação com o lugar é antiga. Ele relembra a praça na sua infância “De primeiro tinha show, sexta, sábado, domingo. Tinha sorteio de leitoa. Parecia um parque, tinha peixe, macaquinho, ganso. Hoje não tem mais nada, só alguns bancos quebrados”. Acostumado a passar jornadas de trabalho inteiras na região ele lamenta “aquilo não é praça”.

    O deslocamento do centro é um sintoma dessa separação. É que agora a elite, os comerciantes e empresários, se deslocam em direção aos shoppings, às áreas residenciais mais caras, aos subúrbios e condomínios. O centro de detenção dos meios produtivos e recursos não significa o centro da cidade em sua geografia e é movido por interesses imobiliários, onde as classes mais altas concentram suas relações. Com esse deslocamento vai junto o interesse econômico, a aplicação da verba pública e os recursos de produção. A transformação e abandono da Rui Barbosa diz respeito ao interesse de valorização de regiões específicas, as privilegiadas, em detrimento das onde estão aqueles chamados de ralé.



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